segunda-feira, outubro 5, 2026

O Coração Jurunense Que Não Se Amofina: Resistência, Memória e Samba no Berço da Amazônia

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Mais do que uma escola de samba, o Grêmio Recreativo Beneficente Jurunense Rancho Não Posso Me Amofiná é o guardião de um legado afro-amazônida que, há nove décadas, transforma a resistência de uma comunidade em poesia, ritmo e patrimônio cultural imaterial de Belém do Pará.

Imagem Agência Belém

A Passarela, o Suor e a Coroa: Abertura Narrativa

Quando a umidade característica da noite belenense se assenta sobre as arquibancadas da Aldeia de Cultura Amazônica Davi Miguel, o histórico sambódromo situado no bairro da Pedreira, o ar parece ganhar uma densidade diferente1. Não é apenas a expectativa comum a qualquer evento festivo; é a iminência de um ritual secular. O som que rompe o murmúrio da multidão não é uma simples marcação rítmica. O surdo de primeira ecoa grave, reverenciando as águas do Rio Guamá e da Baía do Guajará, enquanto as caixas e tamborins respondem com uma cadência que funde o suingue carioca à visceralidade dos batuques ribeirinhos e indígenas2.

O anúncio da entrada do Grêmio Recreativo Beneficente Jurunense Rancho Não Posso Me Amofiná transforma a avenida. O movimento das fantasias, ricas em plumas, paetês e palhas costeiras, espelha a diversidade estética da floresta e da metrópole amazônica. À frente, a presença majestosa do pavilhão nas cores azul, amarelo e vermelho — escoltado com devoção irrestrita pelo casal de mestre-sala e porta-bandeira — anuncia a passagem de uma entidade que carrega no peito o peso da própria história do Pará5. Acima das imensas alegorias, o símbolo maior da agremiação, uma coroa soberana, reflete as luzes dos refletores, atestando a realeza de uma escola forjada no suor da classe trabalhadora5.

O espetáculo do Rancho, no entanto, não se encerra na plástica visual. O verdadeiro fascínio reside no canto uníssono de sua comunidade. As alas, compostas por famílias intergeracionais, idosos da Velha Guarda, crianças e trabalhadores do comércio local, não apenas cantam o samba-enredo, mas o rezam. Ver o Rancho Não Posso Me Amofiná desfilar é testemunhar a sobrevivência de um sonho coletivo, onde o próprio nome da agremiação dita a lei máxima da sobrevivência periférica: diante das adversidades financeiras, do luto, das perseguições políticas ou do rebaixamento, é estritamente proibido “se amofinar” — proíbe-se a tristeza, a submissão e a desistência6. O desfile é, antes de tudo, o grito de um bairro que encontrou no samba a sua mais bela e duradoura forma de existir.

Carro-som (trio elétrico do Bento Maravilha) com Fafá de Belém em destaque no abre-alas do Rancho Não Posso Me Amofiná, na batalha oficial de carnaval em 1982, na Doca de Souza Franco. Imagem: https://blogdogersonnogueira.com/2012/11/24/o-passado-e-uma-parada-62/

Origem e Fundação: O Samba Desembarca na Amazônia

Para compreender a magnitude e a centralidade do Rancho Não Posso Me Amofiná na historiografia do carnaval brasileiro — sendo a primeira agremiação do estado do Pará e a quarta escola de samba mais antiga do Brasil —, é necessário recuar até a década de 19305. O cenário de Belém fervilhava sob o impacto de intensas transformações urbanas, crises econômicas pós-ciclo da borracha e uma cultura popular de rua pujante. O carnaval da época era dominado por entrudos, pelas “grandes sociedades” que refletiam a elite europeizada nos clubes, e pelas manifestações de matriz popular, como os blocos de sujo, cordões de pássaros e os tradicionais bois-bumbás, como o “Pai do Campo”, enraizados nos bairros periféricos2.

A semente de uma ruptura estética e rítmica foi plantada por Raimundo Manito. Sambista, operário, negro e oriundo de uma família humilde, Manito vivenciou uma temporada no Rio de Janeiro, então capital federal5. Nas ladeiras e subúrbios cariocas, ele testemunhou o nascimento embrionário das primeiras escolas de samba — redutos de sociabilidade negra que revolucionavam a forma de fazer carnaval6. Fascinado por essa nova organização e musicalidade, Manito retornou a Belém decidido a transplantar aquele modelo para o solo amazônico, trazendo consigo instrumentos que a capital paraense ainda não aplicava aos seus folguedos: o pandeiro, o surdo de marcação e a cuíca9.

Em 1934, durante o período das festas momescas, Manito reuniu um grupo de amigos e ex-integrantes de outros blocos carnavalescos (notadamente o bloco “Vai Quebrar”) no coração do bairro do Jurunas11. O ponto nevrálgico dessa articulação era a casa onde o sambista morava com sua tia, Maria Eduarda, e sua avó, Dona Quintina, na Travessa Honório José dos Santos, número 246, entre as ruas dos Pariquis e Caripunas11. As reuniões iniciais ali sediadas geraram um folclore próprio. Segundo a memória oral da agremiação, Dona Quintina, embora hospitaleira, expulsou o neto e seus ritmistas de casa ao constatar que um ensaio carnavalesco havia sido convocado em plena Sexta-Feira Santa. Expulsos, restou ao grupo ensaiar nas ruas de terra batida, sob as densas copas das mangueiras belenenses13. Longe de ser esquecida, a matriarca foi imortalizada por Manito em composições posteriores, como no clássico samba “Já dizia Vovó, desde os tempos de menina”11.

Foi nesse caldeirão de tensões, fé e musicalidade que, no dia 31 de janeiro de 1934, nasceu oficialmente o Grêmio Recreativo Beneficente Jurunense Rancho Não Posso Me Amofiná5. A nomenclatura refletia um processo de assimilação cultural. O modelo de “escola de samba” era tão incipiente no Norte do país que a imprensa e os próprios moradores do bairro inicialmente confundiam a agremiação com os populares bois-bumbás ou com os cordões2. O termo “Rancho” era mais palatável ao imaginário local, referindo-se aos agrupamentos que já desfilavam no início do século, enquanto “Não Posso Me Amofiná” adotou a expressão visceralmente cabocla que significa “não posso me render à tristeza”, ressaltando o aspecto social e estoico da comunidade6. No domingo de carnaval do ano de sua fundação, a escola já exibiu na rua as características fundamentais do modelo carioca: o abre-alas, músicos organizados, porta-estandarte e a ala das baianas (composta, à época, por homens travestidos, dadas as convenções da época)11.

O Samba Político e a Sombra da Repressão

A origem do Rancho não se desvincula das lutas operárias. Raimundo Manito era um militante aguerrido do histórico Partido Comunista Brasileiro (PCB), o “Partidão”5. Essa filiação ideológica num Brasil que em breve mergulharia na ditadura do Estado Novo (1937-1945) tornou a escola de samba um alvo sistemático de vigilância e perseguição política. Pesquisadores como Tatiane do Socorro Correa Teixeira, em suas dissertações sobre o carnaval belenense no Estado Novo, demonstram como as portarias da Chefatura de Polícia estabeleciam fiscalização rigorosa sobre ranchos e blocos de periferia12.

A memória oficial da escola sustenta que essa perseguição transcendeu a vigilância policial, impactando diretamente os resultados dos concursos carnavalescos. O caso mais emblemático ocorreu no Carnaval de 1946. Apresentando o enredo “Exaltação aos expedicionários Brasileiros” — uma homenagem rigorosamente enquadrada nos regulamentos ufanistas da época —, o Rancho realizou um desfile considerado arrebatador5. Contudo, a vitória foi entregue à Escola Mista do Umarizal5. Até hoje, integrantes históricos afirmam categoricamente que a derrota foi uma manobra institucional para punir as raízes comunistas de Manito e silenciar a agremiação jurunense5. Apesar das tentativas de sufocamento, a organização solidária estabelecida pela agremiação garantiu sua sobrevivência estrutural ao longo de décadas turbulentas.

Décadas mais tarde, em 1964, a postura politizada da escola voltaria à tona quando o Rancho enredou a campanha em Defesa do Monopólio Integral do Petróleo, pauta fortemente defendida pelo Sindicato dos Petroleiros (SINDIPETRO PA/AM/MA), evidenciando que o samba no Jurunas sempre manteve um pé na folia e outro na barricada social15.

A Comunidade e o Território: O Pulsar Ininterrupto do Jurunas

O Rancho Não Posso Me Amofiná e o bairro do Jurunas não apenas coexistem; eles são ontologicamente inseparáveis. O bairro, delineado nas margens do Rio Guamá, formou-se historicamente como um assentamento de populações ribeirinhas, migrantes do interior do Pará, negros, mestiços e operários, que ergueram suas vidas (e palafitas) em uma relação íntima com a água e com a cidade12. A evolução demográfica do Jurunas ditou a evolução rítmica e social da escola.

Hoje situada em sede própria na Travessa Honório José dos Santos, nº 758, a “casa” do Rancho opera como uma verdadeira praça pública, um centro de irradiação cultural que transcende os quatro dias de carnaval14. Os moradores do bairro autodenominam-se “jurunenses” e “ranchistas” de forma intercambiável, evidenciando como a instituição molda a identidade local4.

O calendário da escola é um organismo vivo. Para além dos ensaios da bateria e das rodas de samba pagode, a sede cede espaço físico para aniversários de 15 anos, cerimônias de casamento, formaturas, bingos comunitários, torneios esportivos e, até mesmo, velórios de moradores ilustres6. A agremiação preenche as lacunas deixadas pelo Estado através de extensos projetos de assistência social. Historicamente, a escola já organizou clubes de mães, grupos de terceira idade, atendimentos odontológicos gratuitos e distribuição de sopa para populações em extrema vulnerabilidade4.

Na esfera educativa e esportiva, o Rancho se destaca por promover a formação de base. O projeto “Dançar Para Não Se Amofinar”, por exemplo, ofereceu oficinas de balé, dança de salão, judô, capoeira, boxe, informática e aulas de violão para cerca de 150 crianças e adolescentes, atuando como um escudo protetor contra as mazelas do crime e do tráfico em uma região sensível de Belém4. Quando chega o mês de junho e o samba recua temporariamente, a comunidade brilha nas quadras com a famosa quadrilha “Sedução Ranchista”, detentora de diversos prêmios nos festivais juninos do Pará, mantendo a efervescência cultural do Jurunas ativa o ano inteiro20.

O Legado de Félix Carlos: Luto e Celebração

A simbiose profunda entre o território e a escola foi duramente atestada nos primeiros dias de 2019. Em 16 de janeiro, a comunidade jurunense foi dilacerada pelo assassinato de Félix Carlos Lopes, vice-presidente do Rancho, morto a tiros aos 50 anos de idade7. Félix era a personificação do líder comunitário amazônico. Além de suas funções na diretoria da escola (como diretor de carnaval), ele era o presidente e fundador da quadrilha “Sedução Ranchista” e o diretor administrativo do Complexo da Feira do Jurunas24.

Seu sepultamento no bairro vizinho do Guamá mobilizou centenas de pessoas, gerando luto em toda a cadeia produtiva da cultura popular de Belém25. A resposta da escola foi rápida e imbuída de amor. Apenas quinze dias após o crime, ao celebrar seus 85 anos de fundação (em 31 de janeiro de 2019), o Rancho inaugurou uma nova varanda em sua fachada batizada com o nome de Félix Carlos7. O poder público também reverenciou sua memória: a Prefeitura de Belém, ao entregar a reforma completa do mercado do bairro, rebatizou o local como “Complexo do Jurunas Félix Carlos dos Santos”26.

A força catártica desse luto convergiria para a passarela semanas depois, impulsionando a escola a um dos campeonatos mais emocionantes de sua trajetória centenária, transformando a tristeza em força motriz23.

Cores, Símbolos e Identidade: A Realeza Cabocla

O reconhecimento do Rancho na paisagem urbana de Belém se dá instantaneamente por meio de sua rica iconografia. O pavilhão ostenta, com orgulho intocável, a combinação das cores azul, amarelo e vermelho5. Na semântica poética da escola, o azul reflete o céu infinito sobre a Linha do Equador e as águas perenes dos rios que banham o estado; o amarelo traduz a riqueza cultural, o ouro e o sol implacável da Amazônia; e o vermelho representa o sangue operário, a paixão indomável e a resistência ancestral contra as opressões5.

Coroando essa paleta cromática, o símbolo oficial da agremiação é a Coroa5. Essa insígnia não denota subserviência à monarquia imperial brasileira, mas antes reivindica a majestade soberana do samba, proclamando o Rancho como a “realeza” incontestável e pioneira do carnaval do Pará5.

O pavilhão é protegido por um casal de mestre-sala e porta-bandeira cuja coreografia é moldada nos rigores cariocas, mas executada sob o calor paraense. A escola, fiel à sua vocação democrática, já protagonizou momentos marcantes de inclusão em seus quadros, como ao destacar Camila de Castro, a primeira porta-estandarte trans do carnaval de Belém, reafirmando que o pavilhão do Rancho acolhe todas as margens da sociedade20.

A Bateria: Onde o Samba Encontra o Carimbó

Nenhuma escola de samba existe sem sua bateria, mas a bateria do Rancho Não Posso Me Amofiná é um caso de estudo antropológico. Desde que Raimundo Manito e a primeira geração de fundadores (que incluía nomes como Demétrio) inseriram o surdo de marcação e as cuícas na década de 1930, os ritmistas da escola tornaram-se os responsáveis por ditar o padrão rítmico do carnaval de rua no Norte do país12.

Com o passar das décadas, porém, a bateria jurunense percebeu que copiar milimetricamente a métrica do Rio de Janeiro significaria sufocar sua própria identidade ribeirinha. Conduzida ao longo dos anos por mestres de ofício respeitados (como o renomado Mestre Cândido) e sob o olhar atento de carnavalescos e diretores como Paulo Isaldo, a escola passou a promover uma profunda hibridização musical28.

O som atual da agremiação é um amálgama impressionante. Estudos acadêmicos, como os de Leopoldo Nogueira Santana Júnior e Alana Borges, apontam que as “paradinhas” (bossas) da bateria do Rancho incorporam células rítmicas oriundas do carimbó, do siriá, da lenda do “carimboi-bumbá” e das batidas ancestrais de bangu-ê3. O balanço sincopado não nega a influência rústica do curimbó (o tambor amazônico de madeira) nem dos banjos caboclos18. Essa fusão cria uma assinatura sonora única: é samba enredo, denso e acelerado, mas com o “banzeiro” inconfundível das águas amazônicas, que obriga os componentes a sambar com a ginga característica da região3.

Carnavais e Enredos Marcantes: 32 Estrelas de uma Constelação

Ao longo de suas nove décadas de existência, o Rancho acumulou a formidável marca de 32 títulos absolutos do Carnaval de Belém (sendo 22 destes campeonatos no formato atual de escolas de samba e 10 na antiga categoria de ranchos carnavalescos), estabelecendo uma hegemonia duradoura5. Seus enredos funcionam como um espelho multifacetado das transformações políticas, ecológicas e sociais da Amazônia. A escola foi mestre em homenagear ícones locais, recontar a história oficial por óticas periféricas e entoar preces ambientais através de sambas antológicos.

O Triunfo Nativista e Ecológico (Décadas de 70 e 80)

Nas décadas de 1970 e 1980, a escola mergulhou em temas nativistas que se consolidaram como verdadeiros hinos de preservação. No carnaval de 1981, a agremiação arrebatou o título de campeã (garantindo um tricampeonato estadual) com o enredo “Tuyá, pequeno índio guardião da floresta renascida”14. A letra do samba-enredo era um grito dilacerante contra a dizimação dos povos originários e o desmatamento promovido pelos grandes projetos governamentais na região. O menino Tuyá, em um ato de sacrifício, transformava-se em cinzas que, espalhadas pelo ar, faziam renascer a fauna: “Peixes voltando com a beleza do mar / Imensas borboletas coloridas / Bailam em harmonia a festejar / Frutos e flores desabrochando / A tribo volta feliz a cantar”17. Esse desfile não apenas derrotou a rival “Quem São Eles”, mas provou a capacidade da escola de produzir literatura engajada17.

O ano seguinte, 1982, consolidou essa vertente lírica com o enredo “A Dança das Folhas na Cidade das Mangueiras” (que seria reeditado de forma gloriosa em 2016, no aniversário de 400 anos de Belém)5. O samba era um afresco urbano da metrópole amazônica, cantando o vento que varre as folhas secas pela avenida, a devoção à Virgem de Nazaré, a comida temperada e a alma boêmia da cidade: “O galo cantando anuncia / O despertar de um novo dia (…) É hora do meu Rancho desfilar / E lá vou eu, e lá vou eu”17.

Homenagens, Luxo e a Glória Recente

Na transição para os anos 2000, o Rancho adaptou-se à modernização dos desfiles, apostando em carnavais suntuosos, apoiados muitas vezes por patrocinadores e figuras políticas de relevo (como o empresário João Bosco Moisés na década de 1980), e enredos que exaltavam grandes instituições e personalidades paraenses3. A agremiação passou a importar grandes vozes do Rio de Janeiro, como o inesquecível intérprete Dominguinhos do Estácio, que gravou seu nome na história da escola, elevando o patamar técnico dos sambas locais5.

O ano de 2002 foi emblemático. Homenageando a cantora Fafá de Belém com o enredo “A Estrela do Norte em Fá Maior”, a escola sagrou-se campeã apresentando um luxo ímpar na avenida. O refrão ressoava: “Canta, canta, Fafá, em fá maior / Mostrando ao mundo quem tu és / O Rancho te coroa imperatriz”5. Essa década ainda veria homenagens triunfantes ao jornalista Romulo Maiorana (2003) e ao esporte paraense, com títulos conquistados nos centenários do Clube do Remo (2005 – “Das Águas do Guajará às terras do Pará”) e do Paysandu Sport Club (2014 – “Da paixão secular ao ícone bicolor”)5. A impressionante sequência renderia ainda um tetracampeonato em 2015, com a homenagem à Assembleia Paraense5.

 

Década Ano Enredo Histórico e Significado Colocação
1940s 1946 Exaltação aos expedicionários Brasileiros (Desfile fortemente elogiado, mas derrotado sob suspeitas de boicote político ao PCB)5 Vice-campeã
1970s 1979 Tempo de Criança (Enredo lúdico, marcado pela pureza poética, reeditado com estrondo em 2012)5 Campeã
1980s 1981 Tuyá, pequeno índio guardião da floresta renascida (Manifesto ecológico e em defesa dos povos originários)14 1º Lugar (Tri)
1980s 1982 A Dança das Folhas na Cidade das Mangueiras (Ode à cultura, clima e religiosidade de Belém. Reeditado em 2016)5 Campeã
2000s 2002 A Estrela do Norte em Fá Maior (Tributo opulento à cantora Fafá de Belém)5 Campeã
2000s 2005 Das Águas do Guajará às terras do Pará: Clube do Remo, 100 anos… (Carnaval monumental com 2.000 componentes)5 Campeã
2010s 2014 Da paixão secular ao ícone bicolor… (Homenagem ao centenário do Paysandu, narrado na voz de Dominguinhos do Estácio)5 1º Lugar (Tri)
2010s 2019 Made in Barcarena – Eu canto o encanto do teu universo (Desfile catártico marcado pelo luto, chuva na avenida e vitória consagradora)5 1º Lugar (Bi)
2020s 2026 Amazônia, Uma Epopeia de Coragem e Preservação: Belém, Capital Mundial do Brega (Retomada apoteótica após o rebaixamento)5 2º Lugar (Acesso)

O carnaval de 2019 permanece como um dos capítulos literários mais potentes da escola. Sob o enredo “Made in Barcarena – Eu canto o encanto do teu universo”, e ainda sob a pesada comoção do assassinato de Félix Lopes, o Rancho entregou uma apresentação tecnicamente impecável. Apoiado em três gigantescos carros alegóricos — um deles portando uma escultura titânica de Mestre Vieira, o pai da guitarrada paraense nascido em Barcarena —, o desfile fundiu a tradição do samba à modernidade amazônica23. A catarse ocorreu em frente aos jurados quando a madrinha da bateria, Valesca Furacão, encarnando a deusa da tempestade, acionou efeitos que fizeram chover de verdade sobre os ritmistas em plena passarela27. A consagração do bicampeonato consecutivo, com 199,8 pontos, marcou a catarse de uma comunidade inteira23.

Memória Oral: As Vozes da Resistência Jurunense

Para capturar a real dimensão do que o Rancho significa, os documentos oficiais e os troféus não bastam. A essência da escola reside nos relatos e nas memórias orais daqueles que constroem a fantasia no chão do barracão. Quando convidados a compartilhar sua primeira lembrança, os mais emocionantes carnavais, os desafios enfrentados e o significado profundo de envergar esse pavilhão, os depoimentos revelam um pertencimento quase genético.

A primeira lembrança da escola: Para muchos brincantes, o Rancho é um legado consanguíneo, transmitido através das gerações. Sarah Oliveira, assídua componente das alas de comunidade, resume essa hereditariedade: “É a minha escola do coração na qual eu carrego um amor de gerações. Minha avó desfilou até seu ultimo dia de vida, aos 80 anos, e eu quero manter essa chama e a tradição vivas”32. A primeira lembrança, invariavelmente, é a do toque do tambor ouvido através das paredes das casas de madeira do Jurunas.

Os carnavais mais marcantes e o significado de desfilar: O sentido de desfilar não está atrelado ao prêmio, mas à representatividade do bairro. Rosenildo Cruz, que liderou a diretoria da ala das passistas por mais de uma década, define essa entrega: “Estou no Rancho há mais de 10 anos e meus sentimentos pela escola são os mais sinceros e amorosos possíveis”8. Durante a emocionante preparação para o desfile de 2019 sobre Barcarena, a moradora e artesã de alegorias Márcia Prata revelou o impacto emocional de ver sua arte cruzar a avenida: “É emocionante, a letra do samba arrepia”8.

As mudanças e os desafios superados: O presidente Fernando Gomes Filho, o Fernando Guga, ao receber o título de 2019 sob intensas lágrimas, imortalizou o sentimento da superação coletiva: “Essa vitória é para a comunidade do Jurunas e, em especial, para o meu irmão (Félix Lopes) que faleceu. O melhor que poderíamos ter feito para homenageá-lo era sermos os campeões. É uma alegria absurda para a escola que vinha sofrendo tanto com perdas e muita tristeza”23. Essa fala, capturada ainda no calor da apuração da Aldeia Amazônica, sintetiza o poder de cura que a escola exerce sobre o tecido social rasgado de sua comunidade23.

Desafios e Resistência: Entre Quedas, Leilões e Ressurreições

A gloriosa trajetória da escola de samba mais antiga do estado jamais foi isenta de profundas crises estruturais e abalos conjunturais3. O carnaval, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, opera com recursos invariavelmente escassos. A falta de subsídios consistentes dos poderes públicos e o distanciamento ocasional de patrocinadores privados forçam as comunidades a milagres financeiros para colocar milhares de componentes na avenida.

O Rancho Não Posso Me Amofiná experimentou a agudeza dessas crises em diversos episódios. A própria sede do bairro do Jurunas, o útero cultural da agremiação, chegou a sofrer a assustadora ameaça de ser levada a leilão por via judicial (através de processos trabalhistas e execuções fiscais) para quitação de antigas dívidas. Episódios como esse evidenciaram a vulnerabilidade do patrimônio material das escolas, mas também despertaram campanhas ferozes de arrecadação e proteção por parte de seus brincantes e dirigentes33.

As turbulências políticas na organização da festa também cobraram seu preço. No ano de 2011, divergências irreconciliáveis com a liga organizadora local motivaram a escola a ausentar-se dos desfiles oficiais, um boicote em nome de sua dignidade institucional que deixou a Aldeia Amazônica órfã de suas cores5. Mais tarde, a devastação imposta pela pandemia de COVID-19 silenciou a folia belenense por dois dolorosos anos (2021 e 2022), afetando drasticamente as famílias de artesãos, costureiras, ferreiros e músicos que tiram do barracão do Rancho parte de seu sustento anual5.

Contudo, o maior revés carnavalesco da história moderna do Rancho ocorreria em 2025. Após décadas figurando como protagonista inquestionável no Grupo Especial, a escola amargou uma decepção inédita. Apresentando o enredo “A história do mascate amazônico que se tornou o midas do norte”, em homenagem ao megaempresário Oscar Rodrigues, a escola enfrentou severos contratempos de harmonia e evolução na avenida5. Apesar da suntuosidade de suas 33 alegorias e 1.700 brincantes, a agremiação foi duramente penalizada pelos jurados, encerrando a disputa num amargo 6º lugar, o que culminou no seu primeiro rebaixamento oficial para o Grupo de Acesso 15.

Cair de divisão representou um trauma profundo para a primeira escola do Pará. O lamento tomou conta das ruas do Jurunas. Mas o provérbio incutido no nome da agremiação imperou novamente. Ao invés de uma desintegração, o rebaixamento instigou um choque de gestão. Sob o comando do presidente Jackson Santarém, barracões foram reabertos imediatamente, projetos foram reavaliados e a comunidade firmou um pacto inquebrantável de honra para devolver o Rancho ao seu devido lugar35.

Importância Cultural: Patrimônio Acadêmico e Imaterial

Não se pode medir o tamanho do Rancho apenas por desfiles e troféus; a agremiação é um monumental vetor civilizatório e epistemológico. Percebendo que o saber popular da escola conformava a própria identidade do Estado, as esferas governamentais chancelaram juridicamente sua relevância. Em maio de 2017, após intensa mobilização social, a Escola de Samba Rancho Não Posso Me Amofiná foi declarada, quase simultaneamente, Patrimônio Cultural do Município de Belém (através da Lei nº 13.441, sancionada pela Câmara de Vereadores) e Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Estado do Pará (através da Lei Estadual nº 8.483)37.

Essa titulação apenas referendou aquilo que as universidades paraenses vinham atestando em décadas de estudos científicos. O Rancho transformou-se num laboratório riquíssimo para a antropologia, a sociologia e as artes. Dissertações pioneiras de acadêmicos da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Universidade do Estado do Pará (UEPA), como as conduzidas por Leopoldo Nogueira Santana Júnior, Tatiane do Socorro Corrêa Teixeira e Alana Maria Ferreira Borges, mapearam minuciosamente os significados embutidos nos sambas, nas ações do barracão e na resiliência territorial do Jurunas6.

Estudiosos como Santana Júnior demonstraram que as composições da agremiação — especialmente entre as décadas de 1970 e 1980 — funcionaram como ferramentas educacionais insurgentes6. Ao transformar em letra de samba as lendas do folclore amazônico, os dramas do seringueiro, a ameaça da grilagem e a importância mítica do boto e da Iara, o Rancho ensinou história local a uma população sistematicamente excluída da educação formal europeizada17. Além disso, a escola atuou ativamente na preservação e modernização da música cabocla. Como já descrito, a cadência rítmica de sua bateria absorveu organicamente a influência do curimbó consagrado por Mestre Verequete e as guitarradas imortalizadas por Mestre Vieira e Mestre Curica18. O Rancho provou ao Brasil que é possível ser uma autêntica escola de samba operando inteiramente sob um dialeto sonoro e narrativo amazônico17.

O Presente e o Futuro: A Redenção no Subúrbio e no Brega

O ano de 2026 permanecerá cravado nos anais do Grêmio Recreativo Beneficente Jurunense Rancho Não Posso Me Amofiná como o ano da resiliência heroica. Disputando o CarnaBelém no Grupo 1 (equivalente à segunda divisão), no sambódromo da Aldeia Amazônica, a diretoria e os brincantes sabiam que possuíam apenas uma missão: o retorno inexorável à elite35.

Para exorcizar o revés do ano anterior, a direção — encabeçada pelo presidente Jackson Santarém, pelo presidente de honra Jango Vidal e com a robusta direção de carnaval formada por Martha Cunha e Leandrinho do Rancho — tomou uma decisão antológica na escolha do enredo. O Rancho optou por mergulhar nas raízes sonoras mais vibrantes, marginais e autênticas de Belém: o brega5. Sob o título “Amazônia, Uma Epopeia de Coragem e Preservação: Belém, Capital Mundial do Brega”, a agremiação abandonou o formalismo e prometeu explodir a passarela numa odisseia de LED, aparelhagens e tecnobrega5.

A construção poética desse projeto foi monumental. O samba-enredo, encomendado aos aclamados compositores Bosco Guimarães, Vicente e Darley Darlen, capturou o nervo exposto das madrugadas belenenses. A letra narrava a epopeia do DJ, das aparelhagens (como o lendário Tupinambá e o Rubi), da venda do açaí com charque nas esquinas e do amor passional: “Eu sou o brega no popular, não preciso de licença para poder brilhar / Eu sou magia, vou te emocionar, eu canto ao mundo do Pará sou tecnobrega, sou Rancho Não Posso Me Amofiná!”36. Para elevar ainda mais a carga emocional, a escola assegurou a potente e carismática voz do aclamado intérprete carioca Ito Melodia, criando uma conexão fabulosa que uniu o subúrbio carioca à periferia amazônica na condução do hino36.

A preparação para os desfiles marcados para os dias 6 e 7 de março de 2026 foi eletrizante. Em 22 de fevereiro daquele ano, a escola organizou o “Ensaio Técnico da Pioneira do Pará”, arrastando uma multidão ensandecida atrás de um super trio elétrico, saindo do Portal da Amazônia em direção à sede no Jurunas45. O mar de componentes em êxtase deixava claro: o povo jurunense havia retomado sua alegria.

E a redenção chegou. Na tensa noite de apuração, realizada em 10 de março de 2026 no auditório da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (Semel), na própria Aldeia Amazônica, os envelopes sacramentaram o esperado retorno35. Somando cravados 199,5 pontos — com um desfile exuberante que transformou a avenida numa verdadeira festa de aparelhagem —, o Rancho conquistou o 2º lugar geral do Grupo 1 (apenas atrás da Mocidade Olariense), garantindo matematicamente sua promoção imediata de volta ao Grupo Especial para o Carnaval de 20271.

A reação ao anúncio foi descrita como um pranto de alívio coletivo por milhares de componentes. O presidente Jackson Santarém, sintetizando o espírito de um mandato vitorioso e a resiliência de um bairro, decretou perante a imprensa: “É uma emoção muito grande para todos nós. Ano passado foi difícil com o rebaixamento, mas a comunidade não desistiu. Voltamos mais fortes, trabalhamos muito e hoje conseguimos reconquistar nosso lugar no Grupo Especial”35. A nova geração de sambistas mirins e passistas, que agora participam intensamente das oficinas socioculturais do barracão, herdará a responsabilidade de manter, nos desfiles futuros do Grupo Especial, o estandarte intocável de sua história.

Conclusão

À medida que os ensaios se encerram nas madrugadas chuvosas de Belém e o repique silencia nas ruelas do Jurunas, a imagem que perdura do Grêmio Recreativo Beneficente Jurunense Rancho Não Posso Me Amofiná não é a de um simples agrupamento carnavalesco4. O que se vê gravado no chão de terra e no asfalto da metrópole é o monumental tratado sociológico de um povo que, desde Raimundo Manito em 1934, recusou a subserviência e o apagamento4.

O pavilhão azul, amarelo e vermelho tremula na memória urbana como um lembrete vivo de que a cultura amazônica é complexa, engajada, devota e profana na mesma medida5. A bateria que mistura as síncopes da escola de samba aos golpes rústicos dos curimbós narra a epopeia de ribeirinhos que transformaram a palafita em reinado folclórico3. Vencendo lutos dolorosos, assédio do poder econômico e até as eventuais quedas classificatórias23, o Rancho se perpetua por seu pacto silencioso de afeto intragrupal.

Desfilar pelo Rancho não é competir; é existir. E na cidade das mangueiras, onde a maré do Rio Guamá sobe e desce ditando o ritmo da vida, o verdadeiro jurunense tem uma única certeza existencial cravada na alma: não importa a força do temporal, quem nasce amparado por essa coroa tem amor no peito e, por excelência, jamais irá se amofinar.

Referências citadas

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