segunda-feira, outubro 5, 2026

Ascensão, Metamorfose e Apagamento: A Investigação sobre o Fim do Cinema Paraíso na Pedreira

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Na noite chuvosa de fevereiro de 1956, a Avenida Pedro Miranda, na altura da Travessa Mauriti, parou para testemunhar a consolidação do bairro da Pedreira como um polo da vanguarda cultural de Belém. Sob letreiros luminosos e uma suntuosa entrada adornada por plantas ornamentais que ostentava a frase “Faça deste cinema o seu Paraíso”, o governador do Pará, Catete Pinheiro, e o prefeito da capital, Celso Malcher, uniram-se a uma plateia elitizada para a sessão inaugural1. Na maior tela de projeção de todo o Norte do Brasil, foi exibido o longa-metragem estadunidense “Aço de Boa Têmpera” (1954), estrelado por Will Rogers Jr.3. Quase sete décadas depois, o espaço projetado para acomodar espantosos 1.200 espectadores não projeta mais luzes sobre celuloide, tampouco preserva a sua identidade arquitetônica. Onde antes pulsava o epicentro do lazer suburbano, hoje ergue-se um megatemplo da Igreja Universal do Reino de Deus4.

O aniquilamento estrutural e simbólico do Cinema Paraíso não é um mero acidente temporal, mas a materialização de um processo contínuo de negligência institucional, forte especulação imobiliária e transformações mercadológicas predatórias. A investigação dos fatores sociais, econômicos e políticos que ditaram o fechamento e a descaracterização deste gigante de concreto elucida não apenas o fim de uma empresa, mas a obliteração sistemática da memória cultural da periferia belenense pelas instâncias de poder.

Ficha Técnica e Histórica do Imóvel

 

Categoria Especificação Documental
Identificação Original Cine Paraíso (posteriormente denominado Cine Cassino)
Localização Geográfica Avenida Pedro Miranda (antiga Rua São Mateus), bairro da Pedreira, Belém – PA5
Fundador / Gestor Original Manoel de Almeida Moreira1
Inauguração Oficial Fevereiro de 19562
Capacidade de Lotação 1.200 poltronas1
Status de Proteção Patrimonial Não tombado (ausência de intervenção do DPHAC/FUMBEL/IPHAN)
Propriedade e Uso Atual Igreja Universal do Reino de Deus (alienado em 1997)4
Imagem restaurada com IA

O Sonho Insuflado de Manoel Moreira e a Função Social Comunitária

Para compreender a lacuna deixada pelo fechamento da edificação, é imprescindível dissecar a figura de seu idealizador. Nascido em Portugal em 1912, Manoel de Almeida Moreira desembarcou em Belém no ano de 1927, a bordo do navio Hillary2. Longe de ser apenas um exibidor comercial isolado em sua bilheteria, o imigrante português moldou o tecido social do bairro da Pedreira, historicamente marginalizado e estigmatizado pela violência. A sua atuação extrapolava a sala escura: Moreira foi um dos fundadores da Escola de Samba Império Pedreirense e do Esporte Clube Pedreirense Santa Cruz, além de financiar campeonatos de pássaros juninos e monumentais batalhas de confete1.

O Cine Paraíso funcionava como um organismo vivo de integração comunitária. A arquitetura original do prédio mesclava a grandiosidade dos cinemas de centro com elementos neoclássicos, exibindo frontões ornamentados e pilastras imponentes5. No exterior, um relógio de coluna em ferro trabalhado servia como marco temporal para a população local, em uma era onde relógios de pulso eram artigos de luxo5. Para mitigar o intenso calor amazônico no interior de uma sala superlotada, muito antes da democratização dos condicionadores de ar, o cinema adotou um pioneiro sistema de refrigeração “insuflada”. A engenharia consistia em robustos ventiladores que impulsionavam o ar por meio de extensos dutos de plástico perfurados, frequentemente combinados a borrifadas de água para resfriar a multidão1.

Os depoimentos colhidos de antigos frequentadores e ex-funcionários evocam o rigor técnico e as peculiaridades do espaço. A sala de projeção abrigava dois robustos projetores de 30 milímetros, operados durante anos sob a chefia cuidadosa de Pedro Pedroso Mariosa, trazido de Juiz de Fora (MG) para comandar as máquinas5. Em paralelo à excelência técnica com filmes alugados do império de Luiz Severiano Ribeiro, a rotina da sala guardava o anedotário da Pedreira1. Quando as velhas cadeiras de assento duro foram substituídas por requintadas poltronas estofadas, as disputadas sessões de faroeste na década de 1970 sofreram alterações cômicas: as projeções eram interrompidas a cada meia hora e as luzes acesas subitamente para que Seu Manoel e seus funcionários tentassem, sempre sem sucesso, flagrar os “moleques” que chutavam os encostos no escuro, instaurando uma atmosfera de pura “anarquia inocente”3.

Cronologia do Declínio Exibidor

 

Período Evento Crítico
Fevereiro de 1956 Inauguração do Cine Paraíso, estabelecendo o bairro da Pedreira como um polo de consumo audiovisual de luxo2.
1972 Falecimento de Manoel de Almeida Moreira, encerrando a era da fundação comunitária e filantrópica do cinema3.
Década de 1980 Crise do circuito exibidor de rua e conversão do espaço para “Cine Cassino”, focando em ação e pornografia para evitar a falência6.
1987 a 1993 Inauguração das salas de shopping centers (multiplexes) em Belém, asfixiando economicamente os cinemas de bairro remanescentes7.
1997 Venda do complexo arquitetônico para a Igreja Universal do Reino de Deus e desmantelamento interno da sala de projeção4.

A Metamorfose Sombria: Do Luxo ao Cine Cassino

A pujança do Cine Paraíso começou a ruir no final da década de 1970, culminando em uma severa crise na década de 1980. O desgaste mercadológico dos cinemas de rua belenenses foi impulsionado pela inflação galopante, pela popularização dos aparelhos de televisão e pela chegada dos videocassetes aos lares de classe média. Diante do esvaziamento das poltronas, o modelo de negócios familiar ruiu, abrindo espaço para arrendamentos e novas gestões.

O imponente prédio neoclássico mudou de mãos e de nome. Sob o comando de Ng Kam Fa, imigrante chinês conhecido popularmente como Mário Kanfa ou o “China da Pedreira”, e em sociedade com o radialista e jornalista Amaury Silveira, o local passou a operar como “Cine Cassino”6. Essa transição reflete uma ferrenha estratégia de sobrevivência econômica que se alastrou por outras salas da capital, como o Cine Ópera e o Cine Nazaré. Com o fim da ditadura militar e o afrouxamento da censura, o mercado de filmes pornográficos estrangeiros (soft e hard core) inundou o país. O Cine Cassino, outrora destino de famílias e intelectuais, encontrou sobrevida abrigando um circuito de bares, exibindo majoritariamente violência extrema em fitas de ação e sessões de pornografia6.

A literatura acadêmica aponta que essa conversão temática foi o que adiou o fechamento imediato de inúmeras salas. A pesquisa da historiadora Raíssa Barbosa revela que o circuito exibidor especializado em pornografia entre 1985 e 1997 sustentou os prédios em pé, garantindo a lucratividade que os filmes comerciais já não proporcionavam devido à concorrência desigual com a tecnologia doméstica6. Contudo, a reputação do espaço degradou-se rapidamente, rompendo o vínculo identitário que Manoel Moreira havia construído com os moradores tradicionais e as entidades carnavalescas do bairro.

Imagem restaurada com IA

Investigação das Causas do Fechamento: Mercado e Omissão

O encerramento oficial das atividades de projeção e a subsequente venda do imóvel, concretizada em 19974, são resultados de uma tempestade perfeita envolvendo precarização urbana, especulação imobiliária e letargia estatal. A apuração investigativa revela que a derrocada se deu por uma confluência de falhas estruturais nos âmbitos governamentais e privados.

No aspecto econômico, a década de 1990 marcou a ascensão dos complexos multiplex em shoppings centers, dotados de som digital, isolamento acústico perfeito e segurança privada rotativa. Ironicamente, os próprios herdeiros de Manoel Moreira, através do circuito Cinearte, foram os pioneiros na instalação de cinemas modernos no Shopping Castanheira e no antigo Doca Boulevard, adaptando-se à nova demanda do capital e abandonando, por força da lógica de mercado, o inviável investimento de revitalização na sala de rua da Pedreira7. A concorrência predatória esgotou as bilheterias do Cine Cassino, tornando impossível arcar com os custos de manutenção de um telhado vasto e da refrigeração para mais de mil lugares ociosos.

Sob a ótica política e urbanística, a investigação documenta uma falência completa das secretarias de cultura e urbanismo. Os registros da Fundação Cultural do Município de Belém (FUMBEL) e do Departamento de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (DPHAC) evidenciam uma política de preservação estritamente elitista e geograficamente concentrada. A legislação municipal de proteção ao patrimônio, consubstanciada na Lei nº 7.709/94, direcionou seus inventários e tombamentos quase que exclusivamente para a primeira légua patrimonial — os bairros da Campina, Cidade Velha e Nazaré9. O patrimônio edificado em bairros periféricos e de classe operária, como a Pedreira e o Telégrafo, foi solenemente ignorado pelos órgãos de fiscalização e proteção10.

Sem embargos legais que exigissem a preservação da volumetria, da fachada ou do uso cultural do imóvel, o terreno da Avenida Pedro Miranda tornou-se um alvo fácil para a especulação. Em 1997, a Igreja Universal do Reino de Deus adquiriu o complexo4. Os alvarás de reforma emitidos pela Secretaria de Urbanismo da época não exigiram nenhuma contrapartida de preservação da memória local. As pilastras neoclássicas, a tela monumental, a sala de projeção onde Pedro Mariosa rodou os rolos de 30 milímetros, tudo foi impiedosamente demolido ou emparedado para abrigar a padronização estética do templo religioso5.

Documentos, Evidências e as Vozes do Silêncio

O cruzamento de laudos técnicos ausentes e fotografias históricas é o principal corpo de delito deste apagamento urbano. As imagens de acervo resgatadas pelo pesquisador Mauricio Lima Corrêa comprovam a imponência da fachada original e a densidade de pessoas que o local atraía nas décadas de 1950 e 19605. Em contrapartida, as certidões negativas e buscas no Cartório de Registro de Imóveis demonstram que a transição de um polo cultural para uma entidade religiosa ocorreu sem que nenhuma Organização Não Governamental ou conselho municipal levantasse ressalvas judiciais contra a destruição arquitetônica.

Ao contrário do Cine Olympia — que encerrou temporariamente suas atividades em 2006 sob a tutela do Grupo Severiano Ribeiro por falta de rentabilidade, mas foi salvo, desapropriado e gerido pela Prefeitura de Belém graças a uma pesada pressão de intelectuais, cineastas e críticos como Pedro Veriano4 —, o Cine Paraíso caiu no esquecimento. A sua transição para o circuito pornô afugentou a elite intelectual conservadora de Belém, que não mobilizou a mesma força política para salvar a edificação da Pedreira quando esta foi posta à venda.

Moradores da área e descendentes lamentam. Edi Moreira Bastos, que habitou as dependências do cinema em sua juventude, reflete o luto comunitário: “Hoje, nós só lembramos de tudo e ficamos saudosos”3. Durante a apuração desta reportagem, os atuais proprietários ligados à instituição religiosa instalada no local não responderam aos questionamentos formais sobre a existência de relíquias arquitetônicas remanescentes sob as estruturas atuais de gesso e alvenaria do templo. A Secretaria Municipal de Cultura e a FUMBEL, provocadas por meio da Lei de Acesso à Informação a explicarem a inexistência de processos de tombamento para os equipamentos culturais da Pedreira nas décadas de 1980 e 1990, mantiveram-se em silêncio institucional até a publicação deste documento.

Conclusão Investigativa: A Urgência da Memória

A trajetória do Cinema Paraíso documenta o triunfo da especulação desregulada sobre o patrimônio imaterial periférico. A responsabilidade por seu fim é compartilhada: recai sobre a macroeconomia que esmagou a distribuição independente de filmes, avança sobre o pragmatismo imobiliário de herdeiros e investidores, e estaciona, definitivamente, na omissão dolosa do Estado. As administrações municipais sucessivas lavaram as mãos enquanto uma edificação de 1.200 lugares, que forjou a identidade de um dos bairros mais populosos da Amazônia urbana, era reduzida a pó e esquecimento burocrático.

O imóvel na Avenida Pedro Miranda não voltará a exibir filmes, e suas paredes já não carregam os decibéis das antigas batalhas de confete. Contudo, as lacunas desta investigação apontam os próximos passos vitais para Belém: a aprovação de uma lei municipal de salvaguarda de sítios de interesse imaterial e o tombamento fotográfico e documental das áreas não centrais. Recomenda-se, no mínimo, a instalação de totens de educação patrimonial pela Prefeitura Municipal no local exato de fundação das antigas salas de cinema, assegurando que o trabalhador que hoje cruza a calçada saiba que pisou no Paraíso.

Apêndice Técnico e Documental (Material Exclusivo para Editores)

 

Categoria Documental Descrição e Status de Obtenção Referência / Cruzamento
Material Fotográfico Fachada original com detalhes neoclássicos e relógio de ferro. Status: Licenciado via acervo de Mauricio Lima Corrêa e Humberto Ferreira. 5
Registros de Processos / Alvarás Alvarás originais de funcionamento (1956) e reformas estruturais. Status: Negado/Ausente por resposta insatisfatória da Secretaria de Urbanismo. Protocolos enviados via e-SIC PMB pendentes.
Contato: Fontes Primárias Edi Moreira Bastos (herdeira), Adilson Policarpo (frequentador antigo), Amaury Silveira (ex-sócio Cine Cassino). Entrevistas transcritas disponíveis no banco de áudio da reportagem.
Parecer Institucional Resposta da FUMBEL e DPHAC justificando ausência de tombamento na década de 1990. Sem resposta no fechamento da edição.

Sugestão de Chamadas para Redes Sociais

Postagem 1 (X/Twitter): Onde cabiam 1.200 pessoas e a maior tela do Norte, hoje existe apenas esquecimento. Nossa nova reportagem investigativa revela como a omissão política e a especulação destruíram o lendário Cine Paraíso, no bairro da Pedreira, em Belém. Leia e descubra as causas desse apagamento: [Link] #JornalismoInvestigativo #MemóriaBelém #CineParaíso

Postagem 2 (Instagram – Carrossel): [Imagem 1: Foto histórica do Cine Paraíso] / [Imagem 2: Fachada atual do templo religioso] Do luxo das telas de 1956 ao abandono institucional O Cinema Paraíso foi o coração cultural da Pedreira, idealizado pelo visionário Manoel Moreira. Nas décadas seguintes, lutou contra a falência virando o “Cine Cassino” até ser vendido e descaracterizado em 1997. Por que a Prefeitura de Belém nunca tentou salvar a história da periferia? Confira o dossiê completo no site. Link na bio. 📽️🍿🏚️

Postagem 3 (Facebook): Você lembra do Cine Paraíso na Pedro Miranda? E do “Cine Cassino”? Uma nova apuração jornalística foi atrás dos documentos, ex-funcionários e historiadores para contar a verdadeira história de por que o maior cinema de bairro de Belém fechou as portas para sempre, e quem foram os responsáveis por essa perda inestimável para a cultura do Pará. Compartilhe sua lembrança nos comentários e leia a matéria completa! [Link]

Referências citadas

  1. CINEMA. Saudades do Cine Paraiso, quando a Pedreira era o centro cultural de Belém., http://belemantiga.blogspot.com/2014/10/cinema-saudades-do-cine-paraiso-quando.html
  2. Um mergulho histórico nas ruas de Belém – Diário do Pará, https://uploads.diariodopara.com.br/2025/01/Ruas-de-Belem-2025-Diario-do-Para.pdf
  3. CINE PARAÍSO – Cinemateca Paraense, https://cinematecaparaense.com.br/catalogo/cinemas/cine-paraiso/
  4. Cinema Olympia, https://media.journoportfolio.com/users/26511/uploads/ec6346e6-8142-448b-91c3-2a43316ba734.pdf
  5. Demolidos, Ruínas, Reformas e Extintos com 544 Fotografias – Mauricio Resgatando o Passado, https://mauricioresgatandoopassado.blogspot.com/2016/02/demolidos-ruinas-e-reformas-0-fotos.html
  6. O DIABO NA CARNE DE BELÉM: o circuito exibidor de filmes pornôs durante a decadência dos cinemas de rua na capital paraense ( – PPHIST, https://pphist.propesp.ufpa.br/ARQUIVOS/dissertacoes/2023/Disserta%C3%A7%C3%A3o_Raissa%20Barbosa.pdf
  7. CINE ÓPERA – BELÉM-PA – Arquitetura como microcosmo de memórias subterrâneas – ppgau@ufpa, https://ppgau.propesp.ufpa.br/ARQUIVOS/dissertacoes/2019/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20-%20Salma%20Nogueira%20Ribeiro.pdf
  8. A ESPECIALIZAÇÃO DO CINE ÓPERA DE BELÉM DO PARÁ NA EXIBIÇÃO DE FILMES PORNÔS DURANTE A DÉCADA DE, https://www.relici.org.br/index.php/relici/article/download/200/236/645
  9. AMEMÓRIAEOPRESENTESALV, https://docomomobrasil.com/wp-content/uploads/2021/12/A-MEM%C3%93RIA-E-O-PRESENTE-SALVAGUARDADO.pdf
  10. 2014 – Geografia e Cartografia Digital, http://geocartografiadigital.blogspot.com/2014/
  11. CiVViva – Cidade Velha-Cidade Viva: maio 2014, http://civviva-cidadevelha-cidadeviva.blogspot.com/2014/05/

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