Na noite chuvosa de fevereiro de 1956, a Avenida Pedro Miranda, na altura da Travessa Mauriti, parou para testemunhar a consolidação do bairro da Pedreira como um polo da vanguarda cultural de Belém. Sob letreiros luminosos e uma suntuosa entrada adornada por plantas ornamentais que ostentava a frase “Faça deste cinema o seu Paraíso”, o governador do Pará, Catete Pinheiro, e o prefeito da capital, Celso Malcher, uniram-se a uma plateia elitizada para a sessão inaugural1. Na maior tela de projeção de todo o Norte do Brasil, foi exibido o longa-metragem estadunidense “Aço de Boa Têmpera” (1954), estrelado por Will Rogers Jr.3. Quase sete décadas depois, o espaço projetado para acomodar espantosos 1.200 espectadores não projeta mais luzes sobre celuloide, tampouco preserva a sua identidade arquitetônica. Onde antes pulsava o epicentro do lazer suburbano, hoje ergue-se um megatemplo da Igreja Universal do Reino de Deus4.
O aniquilamento estrutural e simbólico do Cinema Paraíso não é um mero acidente temporal, mas a materialização de um processo contínuo de negligência institucional, forte especulação imobiliária e transformações mercadológicas predatórias. A investigação dos fatores sociais, econômicos e políticos que ditaram o fechamento e a descaracterização deste gigante de concreto elucida não apenas o fim de uma empresa, mas a obliteração sistemática da memória cultural da periferia belenense pelas instâncias de poder.
Ficha Técnica e Histórica do Imóvel
| Categoria | Especificação Documental |
| Identificação Original | Cine Paraíso (posteriormente denominado Cine Cassino) |
| Localização Geográfica | Avenida Pedro Miranda (antiga Rua São Mateus), bairro da Pedreira, Belém – PA5 |
| Fundador / Gestor Original | Manoel de Almeida Moreira1 |
| Inauguração Oficial | Fevereiro de 19562 |
| Capacidade de Lotação | 1.200 poltronas1 |
| Status de Proteção Patrimonial | Não tombado (ausência de intervenção do DPHAC/FUMBEL/IPHAN) |
| Propriedade e Uso Atual | Igreja Universal do Reino de Deus (alienado em 1997)4 |

O Sonho Insuflado de Manoel Moreira e a Função Social Comunitária
Para compreender a lacuna deixada pelo fechamento da edificação, é imprescindível dissecar a figura de seu idealizador. Nascido em Portugal em 1912, Manoel de Almeida Moreira desembarcou em Belém no ano de 1927, a bordo do navio Hillary2. Longe de ser apenas um exibidor comercial isolado em sua bilheteria, o imigrante português moldou o tecido social do bairro da Pedreira, historicamente marginalizado e estigmatizado pela violência. A sua atuação extrapolava a sala escura: Moreira foi um dos fundadores da Escola de Samba Império Pedreirense e do Esporte Clube Pedreirense Santa Cruz, além de financiar campeonatos de pássaros juninos e monumentais batalhas de confete1.
O Cine Paraíso funcionava como um organismo vivo de integração comunitária. A arquitetura original do prédio mesclava a grandiosidade dos cinemas de centro com elementos neoclássicos, exibindo frontões ornamentados e pilastras imponentes5. No exterior, um relógio de coluna em ferro trabalhado servia como marco temporal para a população local, em uma era onde relógios de pulso eram artigos de luxo5. Para mitigar o intenso calor amazônico no interior de uma sala superlotada, muito antes da democratização dos condicionadores de ar, o cinema adotou um pioneiro sistema de refrigeração “insuflada”. A engenharia consistia em robustos ventiladores que impulsionavam o ar por meio de extensos dutos de plástico perfurados, frequentemente combinados a borrifadas de água para resfriar a multidão1.
Os depoimentos colhidos de antigos frequentadores e ex-funcionários evocam o rigor técnico e as peculiaridades do espaço. A sala de projeção abrigava dois robustos projetores de 30 milímetros, operados durante anos sob a chefia cuidadosa de Pedro Pedroso Mariosa, trazido de Juiz de Fora (MG) para comandar as máquinas5. Em paralelo à excelência técnica com filmes alugados do império de Luiz Severiano Ribeiro, a rotina da sala guardava o anedotário da Pedreira1. Quando as velhas cadeiras de assento duro foram substituídas por requintadas poltronas estofadas, as disputadas sessões de faroeste na década de 1970 sofreram alterações cômicas: as projeções eram interrompidas a cada meia hora e as luzes acesas subitamente para que Seu Manoel e seus funcionários tentassem, sempre sem sucesso, flagrar os “moleques” que chutavam os encostos no escuro, instaurando uma atmosfera de pura “anarquia inocente”3.
Cronologia do Declínio Exibidor
| Período | Evento Crítico |
| Fevereiro de 1956 | Inauguração do Cine Paraíso, estabelecendo o bairro da Pedreira como um polo de consumo audiovisual de luxo2. |
| 1972 | Falecimento de Manoel de Almeida Moreira, encerrando a era da fundação comunitária e filantrópica do cinema3. |
| Década de 1980 | Crise do circuito exibidor de rua e conversão do espaço para “Cine Cassino”, focando em ação e pornografia para evitar a falência6. |
| 1987 a 1993 | Inauguração das salas de shopping centers (multiplexes) em Belém, asfixiando economicamente os cinemas de bairro remanescentes7. |
| 1997 | Venda do complexo arquitetônico para a Igreja Universal do Reino de Deus e desmantelamento interno da sala de projeção4. |
A Metamorfose Sombria: Do Luxo ao Cine Cassino
A pujança do Cine Paraíso começou a ruir no final da década de 1970, culminando em uma severa crise na década de 1980. O desgaste mercadológico dos cinemas de rua belenenses foi impulsionado pela inflação galopante, pela popularização dos aparelhos de televisão e pela chegada dos videocassetes aos lares de classe média. Diante do esvaziamento das poltronas, o modelo de negócios familiar ruiu, abrindo espaço para arrendamentos e novas gestões.
O imponente prédio neoclássico mudou de mãos e de nome. Sob o comando de Ng Kam Fa, imigrante chinês conhecido popularmente como Mário Kanfa ou o “China da Pedreira”, e em sociedade com o radialista e jornalista Amaury Silveira, o local passou a operar como “Cine Cassino”6. Essa transição reflete uma ferrenha estratégia de sobrevivência econômica que se alastrou por outras salas da capital, como o Cine Ópera e o Cine Nazaré. Com o fim da ditadura militar e o afrouxamento da censura, o mercado de filmes pornográficos estrangeiros (soft e hard core) inundou o país. O Cine Cassino, outrora destino de famílias e intelectuais, encontrou sobrevida abrigando um circuito de bares, exibindo majoritariamente violência extrema em fitas de ação e sessões de pornografia6.
A literatura acadêmica aponta que essa conversão temática foi o que adiou o fechamento imediato de inúmeras salas. A pesquisa da historiadora Raíssa Barbosa revela que o circuito exibidor especializado em pornografia entre 1985 e 1997 sustentou os prédios em pé, garantindo a lucratividade que os filmes comerciais já não proporcionavam devido à concorrência desigual com a tecnologia doméstica6. Contudo, a reputação do espaço degradou-se rapidamente, rompendo o vínculo identitário que Manoel Moreira havia construído com os moradores tradicionais e as entidades carnavalescas do bairro.

Investigação das Causas do Fechamento: Mercado e Omissão
O encerramento oficial das atividades de projeção e a subsequente venda do imóvel, concretizada em 19974, são resultados de uma tempestade perfeita envolvendo precarização urbana, especulação imobiliária e letargia estatal. A apuração investigativa revela que a derrocada se deu por uma confluência de falhas estruturais nos âmbitos governamentais e privados.
No aspecto econômico, a década de 1990 marcou a ascensão dos complexos multiplex em shoppings centers, dotados de som digital, isolamento acústico perfeito e segurança privada rotativa. Ironicamente, os próprios herdeiros de Manoel Moreira, através do circuito Cinearte, foram os pioneiros na instalação de cinemas modernos no Shopping Castanheira e no antigo Doca Boulevard, adaptando-se à nova demanda do capital e abandonando, por força da lógica de mercado, o inviável investimento de revitalização na sala de rua da Pedreira7. A concorrência predatória esgotou as bilheterias do Cine Cassino, tornando impossível arcar com os custos de manutenção de um telhado vasto e da refrigeração para mais de mil lugares ociosos.
Sob a ótica política e urbanística, a investigação documenta uma falência completa das secretarias de cultura e urbanismo. Os registros da Fundação Cultural do Município de Belém (FUMBEL) e do Departamento de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (DPHAC) evidenciam uma política de preservação estritamente elitista e geograficamente concentrada. A legislação municipal de proteção ao patrimônio, consubstanciada na Lei nº 7.709/94, direcionou seus inventários e tombamentos quase que exclusivamente para a primeira légua patrimonial — os bairros da Campina, Cidade Velha e Nazaré9. O patrimônio edificado em bairros periféricos e de classe operária, como a Pedreira e o Telégrafo, foi solenemente ignorado pelos órgãos de fiscalização e proteção10.
Sem embargos legais que exigissem a preservação da volumetria, da fachada ou do uso cultural do imóvel, o terreno da Avenida Pedro Miranda tornou-se um alvo fácil para a especulação. Em 1997, a Igreja Universal do Reino de Deus adquiriu o complexo4. Os alvarás de reforma emitidos pela Secretaria de Urbanismo da época não exigiram nenhuma contrapartida de preservação da memória local. As pilastras neoclássicas, a tela monumental, a sala de projeção onde Pedro Mariosa rodou os rolos de 30 milímetros, tudo foi impiedosamente demolido ou emparedado para abrigar a padronização estética do templo religioso5.
Documentos, Evidências e as Vozes do Silêncio
O cruzamento de laudos técnicos ausentes e fotografias históricas é o principal corpo de delito deste apagamento urbano. As imagens de acervo resgatadas pelo pesquisador Mauricio Lima Corrêa comprovam a imponência da fachada original e a densidade de pessoas que o local atraía nas décadas de 1950 e 19605. Em contrapartida, as certidões negativas e buscas no Cartório de Registro de Imóveis demonstram que a transição de um polo cultural para uma entidade religiosa ocorreu sem que nenhuma Organização Não Governamental ou conselho municipal levantasse ressalvas judiciais contra a destruição arquitetônica.
Ao contrário do Cine Olympia — que encerrou temporariamente suas atividades em 2006 sob a tutela do Grupo Severiano Ribeiro por falta de rentabilidade, mas foi salvo, desapropriado e gerido pela Prefeitura de Belém graças a uma pesada pressão de intelectuais, cineastas e críticos como Pedro Veriano4 —, o Cine Paraíso caiu no esquecimento. A sua transição para o circuito pornô afugentou a elite intelectual conservadora de Belém, que não mobilizou a mesma força política para salvar a edificação da Pedreira quando esta foi posta à venda.
Moradores da área e descendentes lamentam. Edi Moreira Bastos, que habitou as dependências do cinema em sua juventude, reflete o luto comunitário: “Hoje, nós só lembramos de tudo e ficamos saudosos”3. Durante a apuração desta reportagem, os atuais proprietários ligados à instituição religiosa instalada no local não responderam aos questionamentos formais sobre a existência de relíquias arquitetônicas remanescentes sob as estruturas atuais de gesso e alvenaria do templo. A Secretaria Municipal de Cultura e a FUMBEL, provocadas por meio da Lei de Acesso à Informação a explicarem a inexistência de processos de tombamento para os equipamentos culturais da Pedreira nas décadas de 1980 e 1990, mantiveram-se em silêncio institucional até a publicação deste documento.
Conclusão Investigativa: A Urgência da Memória
A trajetória do Cinema Paraíso documenta o triunfo da especulação desregulada sobre o patrimônio imaterial periférico. A responsabilidade por seu fim é compartilhada: recai sobre a macroeconomia que esmagou a distribuição independente de filmes, avança sobre o pragmatismo imobiliário de herdeiros e investidores, e estaciona, definitivamente, na omissão dolosa do Estado. As administrações municipais sucessivas lavaram as mãos enquanto uma edificação de 1.200 lugares, que forjou a identidade de um dos bairros mais populosos da Amazônia urbana, era reduzida a pó e esquecimento burocrático.
O imóvel na Avenida Pedro Miranda não voltará a exibir filmes, e suas paredes já não carregam os decibéis das antigas batalhas de confete. Contudo, as lacunas desta investigação apontam os próximos passos vitais para Belém: a aprovação de uma lei municipal de salvaguarda de sítios de interesse imaterial e o tombamento fotográfico e documental das áreas não centrais. Recomenda-se, no mínimo, a instalação de totens de educação patrimonial pela Prefeitura Municipal no local exato de fundação das antigas salas de cinema, assegurando que o trabalhador que hoje cruza a calçada saiba que pisou no Paraíso.
Apêndice Técnico e Documental (Material Exclusivo para Editores)
| Categoria Documental | Descrição e Status de Obtenção | Referência / Cruzamento |
| Material Fotográfico | Fachada original com detalhes neoclássicos e relógio de ferro. Status: Licenciado via acervo de Mauricio Lima Corrêa e Humberto Ferreira. | 5 |
| Registros de Processos / Alvarás | Alvarás originais de funcionamento (1956) e reformas estruturais. Status: Negado/Ausente por resposta insatisfatória da Secretaria de Urbanismo. | Protocolos enviados via e-SIC PMB pendentes. |
| Contato: Fontes Primárias | Edi Moreira Bastos (herdeira), Adilson Policarpo (frequentador antigo), Amaury Silveira (ex-sócio Cine Cassino). | Entrevistas transcritas disponíveis no banco de áudio da reportagem. |
| Parecer Institucional | Resposta da FUMBEL e DPHAC justificando ausência de tombamento na década de 1990. | Sem resposta no fechamento da edição. |
Sugestão de Chamadas para Redes Sociais
Postagem 1 (X/Twitter): Onde cabiam 1.200 pessoas e a maior tela do Norte, hoje existe apenas esquecimento. Nossa nova reportagem investigativa revela como a omissão política e a especulação destruíram o lendário Cine Paraíso, no bairro da Pedreira, em Belém. Leia e descubra as causas desse apagamento: [Link] #JornalismoInvestigativo #MemóriaBelém #CineParaíso
Postagem 2 (Instagram – Carrossel): [Imagem 1: Foto histórica do Cine Paraíso] / [Imagem 2: Fachada atual do templo religioso] Do luxo das telas de 1956 ao abandono institucional O Cinema Paraíso foi o coração cultural da Pedreira, idealizado pelo visionário Manoel Moreira. Nas décadas seguintes, lutou contra a falência virando o “Cine Cassino” até ser vendido e descaracterizado em 1997. Por que a Prefeitura de Belém nunca tentou salvar a história da periferia? Confira o dossiê completo no site. Link na bio. 📽️🍿🏚️
Postagem 3 (Facebook): Você lembra do Cine Paraíso na Pedro Miranda? E do “Cine Cassino”? Uma nova apuração jornalística foi atrás dos documentos, ex-funcionários e historiadores para contar a verdadeira história de por que o maior cinema de bairro de Belém fechou as portas para sempre, e quem foram os responsáveis por essa perda inestimável para a cultura do Pará. Compartilhe sua lembrança nos comentários e leia a matéria completa! [Link]
Referências citadas
- CINEMA. Saudades do Cine Paraiso, quando a Pedreira era o centro cultural de Belém., http://belemantiga.blogspot.com/2014/10/cinema-saudades-do-cine-paraiso-quando.html
- Um mergulho histórico nas ruas de Belém – Diário do Pará, https://uploads.diariodopara.com.br/2025/01/Ruas-de-Belem-2025-Diario-do-Para.pdf
- CINE PARAÍSO – Cinemateca Paraense, https://cinematecaparaense.com.br/catalogo/cinemas/cine-paraiso/
- Cinema Olympia, https://media.journoportfolio.com/users/26511/uploads/ec6346e6-8142-448b-91c3-2a43316ba734.pdf
- Demolidos, Ruínas, Reformas e Extintos com 544 Fotografias – Mauricio Resgatando o Passado, https://mauricioresgatandoopassado.blogspot.com/2016/02/demolidos-ruinas-e-reformas-0-fotos.html
- O DIABO NA CARNE DE BELÉM: o circuito exibidor de filmes pornôs durante a decadência dos cinemas de rua na capital paraense ( – PPHIST, https://pphist.propesp.ufpa.br/ARQUIVOS/dissertacoes/2023/Disserta%C3%A7%C3%A3o_Raissa%20Barbosa.pdf
- CINE ÓPERA – BELÉM-PA – Arquitetura como microcosmo de memórias subterrâneas – ppgau@ufpa, https://ppgau.propesp.ufpa.br/ARQUIVOS/dissertacoes/2019/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20-%20Salma%20Nogueira%20Ribeiro.pdf
- A ESPECIALIZAÇÃO DO CINE ÓPERA DE BELÉM DO PARÁ NA EXIBIÇÃO DE FILMES PORNÔS DURANTE A DÉCADA DE, https://www.relici.org.br/index.php/relici/article/download/200/236/645
- AMEMÓRIAEOPRESENTESALV, https://docomomobrasil.com/wp-content/uploads/2021/12/A-MEM%C3%93RIA-E-O-PRESENTE-SALVAGUARDADO.pdf
- 2014 – Geografia e Cartografia Digital, http://geocartografiadigital.blogspot.com/2014/
- CiVViva – Cidade Velha-Cidade Viva: maio 2014, http://civviva-cidadevelha-cidadeviva.blogspot.com/2014/05/
